A pressão é palpável, mas não é o fim
Você está no Morumbi, ou talvez em um bar lotado de são-paulinos, e o silêncio é ensurdecedor. O placar não se mexe. O time tropeça em passes simples, a defesa parece um queijo suíço, e o ataque? Bem, o ataque é como um fantasma — existe, mas nunca aparece quando mais precisa. Nove jogos sem vitória não são apenas uma sequência ruim. São um sintoma de problemas mais profundos que precisam ser enfrentados.
Mas antes de apontar culpados, é preciso entender: o que está realmente errado?
Os erros táticos de Dorival Júnior: quando a experiência não basta

Dorival Júnior é um técnico experiente, com passagens vitoriosas por outros clubes. No entanto, no São Paulo, sua abordagem tática tem revelado falhas estruturais que vão além de simples ajustes. O problema começa na formação, mas não para por aí.
A formação que desequilibra o time
A escolha recorrente do 4-2-3-1, teoricamente equilibrada, na prática se transforma em um pesadelo coletivo. Os laterais não sobem com segurança, os volantes não protegem a zaga, e os meias ficam perdidos entre as linhas. O resultado é um time que joga como peças de xadrez sem comunicação — cada jogador em sua ilha, sem conexão com os companheiros.
E quando o adversário pressiona, a fragilidade fica exposta: o São Paulo desmorona como um castelo de cartas. Mas o problema não é apenas a formação em si, mas como ela é executada.
Substituições que não resolvem o jogo
As mudanças durante as partidas revelam outro ponto crítico. Dorival costuma esperar até o segundo tempo para fazer substituições, mas muitas vezes elas são tímidas ou previsíveis. Trocar um meia por outro meia não muda a dinâmica quando o time precisa de criatividade ou de um novo ritmo.
Pior: algumas substituições parecem desconectadas da realidade do jogo. Colocar um atacante quando o time precisa de um zagueiro, ou vice-versa, é como tentar apagar fogo com gasolina. O time continua patinando, e a frustração da torcida só aumenta.
Falta de identidade: o time que não se reconhece
Times vencedores têm uma marca registrada. O Barcelona tinha o tiki-taka, o Liverpool tem a pressão alta, o Flamengo de Jorge Jesus tinha o jogo ofensivo. E o São Paulo? O que define esse time hoje?
A resposta é incômoda: não há uma identidade clara. O São Paulo joga de forma reativa, esperando o erro do adversário para contra-atacar. Mas quando o adversário não erra, o time fica sem opções. É como um boxeador que só sabe se defender — cedo ou tarde, ele será nocauteado.
Essa falta de rumo tático é o primeiro elo de uma corrente de problemas que se estende para além do campo.
A pressão da torcida: combustível ou veneno?
A cobrança da torcida é implacável — e compreensível. O São Paulo não é um time qualquer: é um clube com três Libertadores, um Mundial de Clubes e uma história de glórias. Mas essa paixão tem dois lados.
O peso da história e a cobrança implacável
Cada derrota é amplificada. Cada erro é dissecado nas redes sociais, nos bares, nos grupos de WhatsApp. Essa pressão não afeta apenas os jogadores — ela chega ao técnico, à diretoria e a todos que fazem parte do clube.
Em um ambiente assim, é fácil perder a cabeça. Mas também pode ser o combustível para uma reviravolta. A questão é: como canalizar essa energia de forma construtiva?
O poder da união: lições do passado
Em 2005, o São Paulo enfrentou uma crise semelhante: um jejum de vitórias, uma torcida dividida e uma pressão enorme. Mas com união e trabalho, o time se reergueu e conquistou a Libertadores e o Mundial. A torcida teve um papel fundamental nesse processo, apoiando mesmo nos momentos difíceis.
Hoje, a situação se repete. A torcida está dividida entre os que apoiam Dorival e os que pedem sua saída. Mas se houver união — se todos remarem para o mesmo lado —, o São Paulo pode dar a volta por cima. Afinal, como diz o ditado: a união faz a força.
A diretoria precisa agir — e rápido
A pressão da torcida também deve chegar à diretoria. Cobrar apenas dos jogadores e do técnico não é suficiente. A diretoria precisa criar condições para que o time volte a vencer: contratações inteligentes, planejamento a longo prazo e, acima de tudo, paciência estratégica.
Mas paciência não significa omissão. Se os erros persistirem, a diretoria terá que tomar decisões difíceis. E a torcida estará atenta a cada passo, cobrando não apenas resultados, mas também transparência e ação.
Enquanto isso, dentro de campo, os jogadores seguem lutando — ou pelo menos deveriam.
Jogadores abaixo do esperado: quem está falhando e por quê?
Se a tática é o esqueleto do time, os jogadores são os músculos. E hoje, muitos deles parecem atrofiados. O problema não é falta de talento, mas de consistência — e, em alguns casos, de atitude.
O ataque que desaparece
Luciano e Calleri já foram decisivos em outras temporadas, mas hoje parecem perdidos em campo. Os gols não saem, as finalizações são imprecisas, e a sensação é de que o time joga com um atacante a menos.
Não é só falta de gols. É falta de presença, de movimentação, de fome. O São Paulo precisa de um atacante que assuste as defesas adversárias, que faça a diferença em jogadas individuais. Hoje, esse jogador não existe no elenco.
A defesa que não defende
A defesa também não escapa das críticas. Miranda, que já foi um dos melhores zagueiros do mundo, hoje parece um passo atrás do ritmo do jogo. Os laterais não oferecem segurança defensiva nem apoio ao ataque.
E o gol? O São Paulo já sofreu gols bobos, de bola parada, de jogadas ensaiadas. É como se a defesa não soubesse mais se posicionar. Sem uma retaguarda sólida, é impossível construir um time vencedor.
O meio-campo sem rumo
O meio-campo é o coração do time. É ele que dita o ritmo, faz a transição entre defesa e ataque e cria as jogadas. No São Paulo, porém, o meio-campo parece um labirinto sem saída.
Jogadores como Liziero e Patrick tentam, mas faltam ideias, passes decisivos e criatividade. Quando o meio-campo não funciona, todo o time sofre: a defesa fica exposta, o ataque não recebe bolas, e o jogo se transforma em um caos.
Essa combinação de problemas individuais e coletivos leva a uma pergunta inevitável: o que precisa mudar para o São Paulo voltar a vencer?

O caminho para a recuperação: mudanças urgentes e necessárias
A crise do São Paulo não será resolvida com uma única solução. É preciso uma abordagem multifacetada, que envolva tática, elenco e até mesmo a relação com a torcida.
Uma reformulação tática que faça sentido
O primeiro passo é repensar a formação. O 4-2-3-1 não está funcionando — então por que insistir? Talvez seja hora de experimentar um 4-3-3, com três volantes para dar mais segurança à defesa, ou até mesmo um 3-5-2, para explorar melhor os laterais.
O importante é encontrar uma formação que se adapte aos jogadores disponíveis e que permita ao time jogar com mais confiança. E, claro, é preciso treinar essa formação até que ela se torne automática — porque tática sem treino é apenas teoria.
Contratações que realmente façam a diferença
Reforçar o elenco não significa apenas trazer jogadores famosos. É preciso contratações inteligentes: um atacante decisivo, um zagueiro líder, um meia criativo — perfis que complementem o que já existe.
Mas as contratações precisam ser planejadas. Não adianta gastar milhões em um jogador que não se adapta ao estilo do time. É preciso estudo, paciência e, acima de tudo, critério.
A torcida como parte da solução
Por fim, o São Paulo precisa da torcida — não apenas nos momentos de vitória, mas também nas horas difíceis. A torcida pode ser o diferencial, o empurrão que o time precisa para sair dessa crise.
Mas a cobrança precisa ser construtiva. Gritar e xingar faz parte, mas é preciso também apoiar, incentivar e acreditar. Porque, no fim das contas, o São Paulo é muito maior do que nove jogos sem vitória.
E se há algo que a história do clube ensina, é que crises são passageiras — desde que haja coragem para enfrentá-las.
Conclusão: a verdade inconveniente e o caminho à frente
Nove jogos sem vitória não definem o São Paulo. Mas são um sinal claro de que algo precisa mudar — e rápido. Seja na tática, nos jogadores ou na relação entre time e torcida, é hora de agir.
O São Paulo já passou por crises maiores e saiu mais forte. Não há motivo para acreditar que dessa vez será diferente. Mas para isso, é preciso enfrentar a verdade: o time precisa de mudanças profundas, não de remendos.
E essas mudanças começam com uma pergunta simples: o que o São Paulo quer ser? Um time reativo, que espera o erro do adversário? Ou um time protagonista, que impõe seu jogo e volta a assustar os rivais?
A resposta definirá não apenas o futuro dessa temporada, mas o legado dessa geração de jogadores, técnicos e dirigentes.